Rosalía
LUX, lançado no dia 07 de novembro, é o novo álbum da cantora Rosalía.
Rosalía em LUX, nos lembra que estudo e técnica são elementos que podem tornar um disco incrível. Em uma indústria algorítmica que talvez nem produza mais arte com alma. A artista mostra excelência em sua área. Livrando-se de ego e limitações impostas por todos.
Em uma sociedade capitalista na qual tudo é pensado para lucrar, na indústria da música não seria diferente. Há cerca de um mês, Taylor Swift entregou ao mundo um de seus piores discos. Álbum que, segundo ela, foi feito em um curto período, talvez por isso falho em sua mensagem.
Por ser fruto da Escola Superior de Música da Catalunya, em Barcelona, Rosalía canta como se já tivesse vivido séculos. Ser musicista de formação favorece a construção de sua arte. Um disco após o outro, as expectativas acerca de suas músicas só crescem. Para alguns uma maldição. Para ela não. LUX é pura arte.
LUX
Rosalía continua introduzindo novas formas de fazer música ao público. Depois de seus primeiros álbuns, Los Ángeles e El Mal Querer, introduzirem o Flamenco ao mundo; o segundo redefine a construção clássica e apresenta uma música construída de forma meticulosa e condizente com suas partituras de referência — a Flamenca. Ela continuou numa crescente surpreendente com o aclamado Motomami. Disco em que sai de sua área de conforto e carrega suas referências para criar algo inédito, tropical, alternativo e intenso. Álbum que a consagra como um dos pilares da música moderna. Mas quando a terra se mostra o limite ela deve cantar aos céus.
Seu quarto álbum é um chamado ao atingir o sagrado, o tradicional, tudo que há de qualidade no clássico. Lux é orquestrado em quatro partes e cantado em 13 idiomas diferentes. Não são palavras soltas e sem sentido e sim versos inteiros, em que um idioma se apoia no outro, melodias complexas, com pronúncias perfeitas. “Fiz o álbum por amor e curiosidade, querendo aprender outras línguas, querendo entender melhor o outro”, disse a cantora ao New York Times. Citando a filósofa Simone Weil, ela continua: “Amor é amar a distância entre nós e o objeto amado. Através de entender o outro, talvez você possa entender a si melhor, e aprenda a amar melhor”. A música, é o idioma ancestral. E ainda une quando todas as outras palavras falham.
Lux é gravado em conjunto à Orquestra Sinfônica de Londres e o maestro Daníel Bjarnason. O álbum conta com participações vocais de Björk, Yves Tumor e outros excelentes colaboradores. Rosalía caminha por temas como: religiosidade, o sagrado feminino e a música clássica com fluidez impressionante. Há certa inspiração religiosa, “um desejo de ficar mais perto de Deus”, continua para o NYT. “Quanto mais vivemos na era da dopamina, mais eu quero o oposto”, disse, sobre desejar que as pessoas escutem o álbum com atenção, sem usar o celular ao mesmo tempo, e reconhece que está exigindo muito do público.
O disco está longe de ser sobre refrões baratos e fracos, constrói sua atmosfera perfeita com equilíbrio, trazendo inovação a sua discografia. Este álbum é esperança e paz para nosso tempo. O amor, calor e o medo ainda podem ser encontrados na música, a arte ainda é feroz. Seus ouvintes não buscam mesmice ou repetição e, ela os entrega isso.
Apesar do disco ter 18 faixas, três delas o grande público não teve acesso. Focu ‘ranni, Jeanne e Novia Robot ficaram restritas as mídias físicas, essas não foram incluídas na crítica.
Em toda sua grandiosidade narrativa, LUX é um trabalho feito com componentes e produtores que são familiares a artista; é uma oração em voz alta para que não só Deus ouça, mas a nova geração também. A voz de Rosalía é a luz. As músicas seguem a sua voz, não o som da orquestra. A jornada é travada por uma perspectiva, a narrativa vocal. Na faixa de abertura, “Sexo, Violencia, y Llantas”, ela anuncia sua intenção: “Como seria bom vir desta Terra, ir para o Céu e voltar à Terra”. Em outra canção, ela volta ao caminhar por meio do flamenco pop, seu gênero musical de origem (“La Rumba Del Perdon”). Se mostra afiada em insultos em forma de valsa (“La Perla”). Crescendo com operísticos existenciais e questionamentos de parceiros que já se foram e o “nós” ficou em (“Memoria”). Em outras detalha a tentação, luxúria e o desejo sexual proibido, o sexo como ascensão (“Divinize”). E há uma canção em que Rosalía se mostra uma deusa imperfeita — revela obsessão pelo outro e se torna cega pela paixão (“Dios Es Un Stalker”).
LUX mostra o fruto proibido — a divindade como uma resposta complexa e dramática. Amor, homens, Deus, feminilidade, morte, sacrifício — ideias rezadas em japonês, português, chinês, italiano e mais nove idiomas. Rosalía decidiu encarnar quatro aspectos, um grupo de santas: Santa Rosa de Lima, Anandamayi Ma, Hildegarda de Mirgen, Rabi al-Adawiyya e outras mártires. Para isso, ela leu hagiografias das santas e poetisas; estudou teoria feminista. Buscou inspiração nessas devotas e sintetizou suas mensagens em seu próprio credo.
Nota: 9 — A luz à de iluminar
O álbum é um clássico instantâneo. Um lindo disco. Composto por uma produção tão cheia de detalhes que chega ser maximalista, com acordes, vocais e letras impressionantes. Original, mas pegando as bases que já existiam e as expande de jeito que só uma artista pop faria. Sim, essa música é pop e diferente do que ouvimos com frequência, existe unicidade e autenticidade. Walter Benjamin aprovaria essas canções e as validaria com AURA.
Espere a música chegar e atente-se aos detalhes. Não precisa ser fã para sentir esse álbum eletrizar sua espinha. Use LUX para iluminar e conhecer esse universo de contemplação. Nasça na Terra, vá para o Céu e volte à Terra enquanto ela implora para que você jogue flores sobre seu caixão.
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Letterboxd — curtas resenha sobre alguns filmes que assisto.






Muito bom!!